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pelo Massa Grossa

Educação & Desenvolvimento08 de agosto de 2026·8 min de leitura

Uma mesa para aprender, por favor!

Porque conviver também é aprender

Wendel Vinícius de Freitas Santos — Professor | Gestor Educacional

Wendel Vinícius de Freitas Santos — Professor | Gestor Educacional

Professor e Gestor Educacional | Doutorando em Estudos de Linguagens (UFMS)

Wendel Vinícius — Uma mesa para aprender, por favor!

Foto: Acervo pessoal Wendel Vinícius

Existe uma pequena ilusão em torno das cafeterias. Acreditamos que as pessoas entram nelas apenas para tomar café. Talvez entrem também. Mas basta permanecer alguns minutos para perceber que, entre uma mesa e outra, circulam muito mais do que bebidas e comidas. Circulam ideias, afetos, despedidas, comemorações, reencontros, silêncios, projetos, dúvidas e esperanças. O café apenas aproxima. O que realmente alimenta aquele espaço são as histórias que se cruzam.

Durante muito tempo aprendemos a imaginar a educação cercada por muros, horários e carteiras enfileiradas. É verdade que a escola é um dos mais importantes espaços de formação humana. É nela que sistematizamos conhecimentos, desenvolvemos métodos e ampliamos horizontes. No entanto, há aprendizagens que escapam aos currículos e insistem em acontecer na vida cotidiana.

Paulo Freire nos ensinou que "...ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo: os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo". Talvez essa comunhão aconteça com mais frequência do que percebemos. Ela acontece quando ouvimos uma história diferente da nossa, quando mudamos de opinião depois de uma conversa sincera ou quando descobrimos que o respeito nasce antes mesmo do consenso.

A convivência é uma das formas mais silenciosas e profundas de educação.

Os livros nos apresentam conceitos. As pessoas nos apresentam complexidades.

Nenhum manual ensina exatamente o momento de interromper uma fala para ouvir alguém que precisa apenas ser escutado. Nenhuma apostila consegue reproduzir a delicadeza de um pedido de desculpas, a maturidade de reconhecer um erro ou a generosidade de oferecer ajuda sem esperar recompensa. Essas lições acontecem nos corredores da vida.

A literatura sempre compreendeu isso muito antes das teorias educacionais. Em Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa escreveu que "...mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende". Talvez seja essa a mais bonita definição de convivência: um espaço onde todos, em algum momento, alternam os papéis de ensinar e aprender.

Em uma lanchonete isso se revela com uma beleza quase invisível. O garçom conhece o nome de quem chega. O cliente habitual percebe quando alguém novo está inseguro diante do cardápio. Duas pessoas dividem a tomada para carregar o computador. Alguém oferece a cadeira vazia. Outro sorri discretamente para um desconhecido. Um grupo dialoga e contempla a ornamentação natural do espaço ao som da trilha sonora, intencionalmente escolhida para compor o ambiente.

São gestos pequenos.

Mas a educação sempre soube morar nas pequenas coisas.

Rubem Alves dizia que "...ensinar é um exercício de imortalidade". Eu acrescentaria que conviver também é. Porque cada encontro deixa em nós alguma marca, ainda que imperceptível. Somos feitos das pessoas que passaram por nossas vidas, das conversas inesperadas, dos afetos discretos e até dos desacordos que nos obrigaram a crescer.

Talvez por isso a escola nunca tenha sido apenas um prédio.

Ela também é o parque onde crianças inventam brincadeiras sem precisar de instruções. É a mesa do almoço em família. É o banco da praça ocupado por desconhecidos que compartilham histórias. É a fila do mercado, onde aprendemos paciência. É o ambiente de trabalho, onde exercitamos cooperação. É, por que não, a lanchonete onde o café aproxima pessoas que talvez nunca mais se encontrem, mas que, por alguns minutos, dividem o mesmo tempo.

Em um mundo cada vez mais conectado por telas, convivemos com centenas de pessoas e, paradoxalmente, conversamos cada vez menos. Temos respostas rápidas para quase tudo, mas raramente oferecemos presença verdadeira. Talvez um dos maiores desafios da educação contemporânea não seja apenas ensinar novos conteúdos, mas reaprender a cultivar os encontros.

Mais do que transmitir conhecimentos, educar é ampliar a maneira como habitamos o mundo. É descobrir que o outro nunca é apenas alguém que cruza o nosso caminho, mas alguém que também participa daquilo que nos tornamos. A aprendizagem mais duradoura talvez seja justamente essa: compreender que nenhuma formação é completa quando acontece apenas nos livros e que toda convivência carrega um potencial transformador.

Ao terminar meu refresco de morango com sanduíche Fina, volto a observar as pessoas ao meu redor. Algumas já foram embora. Outras acabaram de chegar. As mesas mudam de ocupantes, as conversas se renovam e a vida continua acontecendo, quase sem pedir licença.

Penso, então, que os muros da escola continuam indispensáveis. Eles protegem, organizam e cultivam o conhecimento. Mas a educação, essa velha viajante, nunca aceitou permanecer confinada. Ela atravessa portas, percorre ruas, senta-se discretamente às mesas de uma lanchonete e encontra morada em cada encontro humano.

Há quem diga que a escola prepara para a vida. Eu prefiro acreditar que a vida também prepara, todos os dias, para aquilo que a escola deseja formar. Cada encontro nos alfabetiza um pouco mais na difícil arte de compreender pessoas. Cada conversa amplia o vocabulário da empatia. Cada despedida ensina algo sobre permanência. Cada recomeço nos lembra que aprender nunca foi um verbo restrito à infância.

Talvez esse seja o verdadeiro currículo da convivência: um programa sem disciplinas, sem provas e sem certificados, mas que acompanha cada um de nós por toda a vida.

Quando me levanto para ir embora, algumas pessoas continuam conversando. Outras chegam apressadas, pedem um café para viagem e seguem seu caminho. Amanhã, novas histórias ocuparão essas mesmas mesas. Novos encontros acontecerão sem que ninguém perceba que, entre um gole e outro, alguém saiu dali um pouco diferente de como entrou.

É então que compreendo que a educação se parece muito com esse movimento silencioso. Ela nunca termina quando fechamos um livro. Nunca começa apenas quando um professor entra em sala. Ela acontece sempre que um ser humano permite que outro deixe marcas em sua maneira de ver o mundo.

Porque, no fim, o que realmente nos educa não são apenas as lições que acumulamos, mas as presenças que nos transformam. E talvez seja por isso que as melhores salas de aula nem sempre tenham paredes: elas têm mesas, olhares, escuta, afeto... e, quase sempre, uma boa xícara de café.

Aprender a conviver é massa.

Uma mesa para aprender, por favor!

Referências

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 84. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

ALVES, Rubem. A alegria de ensinar. Campinas: Papirus, 2012.

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Wendel Vinícius de Freitas Santos — Professor | Gestor Educacional

Sobre o autor

Wendel Vinícius de Freitas Santos — Professor | Gestor Educacional

Professor e Gestor Educacional | Doutorando em Estudos de Linguagens (UFMS)

Professor e gestor educacional com atuação na Educação Básica e no Ensino Superior. Doutorando em Estudos de Linguagens (UFMS), com área de concentração em Literatura, Estudos Comparados e Interartes. Mestre em Letras (UEMA). Especialista em Gestão Educacional, Direito Educacional e Linguagens. MBA em Gestão Escolar (USP). Licenciado em Letras e em Pedagogia.

@wendelvinicius

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