O som que o Maranhão inventou
Enquanto outros estados têm um ritmo, o Maranhão tem uma dezena. E cada um deles tem uma história que a maioria de nós nunca ouviu direito.
Curadoria — Viveiro Massa
Cultivo, biofilia e natureza urbana
Existe uma pergunta que nenhum maranhense deveria precisar pesquisar — mas quase todo mundo precisa. Quantos ritmos musicais originais o Maranhão tem?
A resposta é mais de uma dezena. Não variações. Não influências. Gêneros originais, com instrumentação própria, coreografia própria, calendário próprio e comunidades inteiras que os mantêm vivos há gerações.
Enquanto a maioria dos estados brasileiros se identifica com um ou dois ritmos, o Maranhão funciona como o que os pesquisadores chamam de ecótono rítmico — o mesmo fenômeno que faz três biomas coexistirem no mesmo território acontece também na cultura: aqui, mundos musicais distintos se encontram, se misturam e criam algo novo sem perder a origem.
O Bumba Meu Boi que ninguém te explicou direito
Todo maranhense conhece o Bumba Meu Boi. Mas poucos sabem que ele não é uma coisa só. O Boi maranhense se divide em sotaques — variações rítmicas, instrumentais e de indumentária tão diferentes entre si que parecem manifestações distintas. São cinco principais: Matraca, Zabumba, Orquestra, Baixada e Costa de Mão.
O sotaque de Matraca, da Ilha, é o mais imponente — seus batalhões podem reunir milhares de pessoas. O Zabumba, de Guimarães, é o mais antigo, com percussão rústica e cadência lenta que soa quase melancólica. O de Orquestra surgiu de um encontro improvável: na década de 1950, uma orquestra de bordel encontrou um Boi de Zabumba numa festa. O resultado está vivo até hoje.
O sotaque Costa de Mão, de Cururupu, tem uma técnica de percussão encontrada em lugar nenhum mais: toca-se o pandeiro com as costas das mãos. Não é folclore. É uma técnica real, preservada, ensinada de geração em geração numa cidade que a maioria dos maranhenses nunca visitou.
Como o reggae chegou — e por que ficou
A história da relação entre o Maranhão e o reggae é um dos casos mais fascinantes de antropologia musical do mundo. E ninguém sabe ao certo como começou.
Há quem diga que o ritmo chegou pelas ondas curtas de rádios caribenhas captadas no litoral nos anos 1970. Há quem diga que foram marinheiros que aportavam no porto de Itaqui trocando vinis por comida e bebida. Há quem diga que veio por terra, pelas feiras de disco do Pará. Possivelmente as três histórias são verdadeiras ao mesmo tempo.
O que ninguém discute é o que aconteceu depois. O reggae encontrou nas periferias de São Luís um terreno que a Jamaica reconheceria como familiar: população predominantemente negra, trabalhadores vindos do interior, desigualdade estrutural, e uma energia de resistência que não precisava de tradução para ser sentida. As letras jamaicanas ninguém entendia. O que elas transmitiam, todo mundo entendia.
E então o Maranhão fez o que sempre faz com o que recebe de fora: transformou.
A dança que existe só aqui
No resto do mundo, o reggae é dançado individualmente. Em São Luís, ele se tornou uma dança de salão — o agarradinho. Dois corpos, um ritmo, uma forma de dançar que não existe em nenhum outro lugar do planeta, nem na própria Jamaica.
As radiolas — versão maranhense dos sound systems jamaicanos — cresceram de pequenas caixas em bares de periferia para paredões monumentais com até quarenta caixas de som. Hoje São Luís tem mais de 200 radiolas ativas. Os radioleiros mais dedicados viajam até a Jamaica e a Inglaterra em busca de vinis raros que vão virar melôs exclusivos — os hits que só aquela radiola toca, que só aquela comunidade conhece, que passam de mão em mão como segredo.
Em 2023, o Congresso Nacional reconheceu o óbvio: São Luís é oficialmente a Capital Nacional do Reggae, pela Lei Federal 14.668/2023. E no centro histórico da cidade funciona o único museu dedicado ao reggae fora da Jamaica.
O tambor que não tem dia
O Tambor de Crioula é diferente do Boi num detalhe fundamental: ele não tem calendário fixo. Acontece quando um grupo decide pagar uma promessa ou celebrar a vida — e isso pode ser qualquer dia, qualquer mês, qualquer hora.
É um ritmo de louvor a São Benedito e de resistência afro-brasileira. Seu momento mais intenso é a punga — quando as dançarinas se tocam com o ventre, num gesto de saudação que carrega séculos de significado. Não é performance. É herança.
As danças que quase ninguém conhece
O Cacuriá nasceu em Guimarães como a parte profana da Festa do Divino Espírito Santo. Tornou-se famoso através de Dona Teté — uma mulher que sozinha foi responsável por levar esse ritmo para o estado inteiro, com letras maliciosas e uma dança sensual acompanhada pelas caixas do Divino.
A Dança do Caroço, de origem indígena, sobrevive na região de Tutóia, no Delta do Parnaíba. É puxada por uma Rainha do Caroço, com instrumentos rústicos feitos de troncos escavados. Pouquíssimos maranhenses já viram ao vivo.
A Dança do Lelê chegou da Europa — França ou Ibéria, os pesquisadores ainda debatem — e se instalou em Rosário e Axixá no século XIX. Com sapateados e coreografias de cortejo, ela sobreviveu enquanto os modismos musicais de dois séculos passaram e foram esquecidos.
O São João que dura dois meses
O São João do Maranhão é considerado o maior do mundo em duração e diversidade — chegando a 60, 67 dias de festa ininterrupta. Não é marketing turístico. É uma constatação que qualquer pesquisador de folclore confirma.
Enquanto a média nacional de duração das festas juninas é de 15 a 30 dias, o Maranhão prolonga a celebração porque tem mais ritmos para apresentar, mais sotaques para exibir, mais comunidades para incluir. O calendário simplesmente não cabe em menos tempo.
Por que isso importa agora
O Maranhão tem dois títulos da UNESCO — o Bumba Meu Boi como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, e o Centro Histórico de São Luís como Patrimônio Mundial. São raríssimos os estados brasileiros com ambos.
Mas títulos não preservam cultura. Preservam as pessoas que a vivem, que a ensinam, que a dançam numa terça-feira à noite numa festa de periferia sem câmera nenhuma por perto.
No Massa Grossa, a curadoria musical que construímos ao longo de cinco anos é, entre outras coisas, uma homenagem silenciosa a essa riqueza. Não tocamos o óbvio. Não tocamos o descartável. Tocamos música que tem alma — e o Maranhão, como esse artigo tentou mostrar, sabe mais sobre alma musical do que a maioria das pessoas imagina.
Da próxima vez que você ouvir uma radiola na rua, pare um segundo. O que você está ouvindo não é só entretenimento. É uma história de resistência com cinquenta anos de profundidade, que cruzou um oceano sem passagem comprada e decidiu ficar.
Referências
Lei Federal 14.668/2023 — São Luís Capital Nacional do Reggae
Silva, C.B.R. — Da Terra das Primaveras à Ilha do Amor: Reggae, Lazer e Identidade Cultural (UFMA)
Brasil, M.R. — O reggae no Maranhão: música, mídia e poder (2011)
Museu do Reggae Maranhão — Centro Histórico de São Luís
UNESCO — Bumba Meu Boi do Maranhão, Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade
Sobre o autor
Curadoria — Viveiro Massa
Cultivo, biofilia e natureza urbana
O Viveiro Massa nasceu dentro do Massa Grossa como extensão natural do nosso compromisso com o verde. Ao longo de cinco anos, cultivamos, doamos e compartilhamos centenas de espécies com nossa comunidade. Aqui, o verde não é decoração — é essência.





