O que eu aprendi sobre cuidar depois de anos cuidando dos outros
O cabelo foi apenas o começo. As lições mais profundas vieram da vida, da natureza e das mulheres que cruzaram meu caminho
Paula Guimarães
Cabeleireira e Terapeuta Capilar, graduada em Biologia e Pós graduada em Tricologia e Cosmetologia
Este artigo não é sobre cabelos.
E talvez isso seja estranho vindo de alguém que há mais de duas décadas trabalha com eles em tantas vertentes. Mas, depois de anos ouvindo histórias enquanto cuidava da aparência de outras mulheres, comecei a perceber que as transformações mais importantes não são as que acontecem no espelho.
Hoje sei que beleza, autoestima e bem-estar têm muito menos a ver com aparência do que costumamos acreditar. Essa percepção se tornou ainda mais clara depois de algumas experiências pessoais que mudaram a forma como enxergo a vida.
A coragem para sair de um casamento insatisfatório, mudar de uma cidade onde eu já tinha estabilidade profissional construída ao longo de anos e desacelerar administrando meu negocio à distância, foram só algumas delas. Nesse processo, mudei completamente o cabelo também. E se você é mulher, provavelmente nem preciso explicar o significado disso, certo?
Comecei minha trajetória aos 15 anos, com um olhar curioso e uma vontade genuína de cuidar. Aos poucos fui construindo uma conexão entre cuidado, natureza, leveza e escolhas conscientes. O que me levou para essa área foi, de certa forma, a tentativa de oferecer ao mundo aquilo que eu mesma buscava.
Foi através de uma dor minha que enxerguei a dor de outras mulheres. O cabelo foi apenas um atalho para consolar a tristeza de não se sentir vista, cuidada ou adequada.
O que não aparece no espelho
Transformação. Mudança. Antes e depois. Essas são algumas das expressões preferidas da área da beleza e, muitas vezes, se referem apenas à superfície.
Trabalhar nesse setor é desafiador em muitos sentidos. Além do esforço físico e emocional, existe uma pressão silenciosa que por muito tempo coloquei sobre mim mesma, como se precisasse representar uma versão idealizada o tempo todo, como se não pudesse ter inseguranças ou envelhecer. Confesso que ainda estou aprendendo a fazer as pazes com isso.
Olhar para si mesma com mais gentileza e reconhecer que nem tudo precisa ser corrigido é um passo difícil para nós mulheres. Talvez porque fomos ensinadas a enxergar valor apenas naquilo que conseguimos melhorar. Foi justamente nesse caminho que comecei a entender uma diferença importante entre autoestima e autovalor.
A autoestima oscila. Ela pode aumentar quando gostamos do que vemos no espelho (como um novo cabelo), quando recebemos um elogio ou quando estamos vivendo uma fase boa. O autovalor é mais profundo. É a capacidade de reconhecer o próprio valor mesmo nos dias em que nada disso acontece.
Talvez por isso eu tenha percebido que o meu trabalho, e de todos que trabalham com a beleza, não deveria ser sustentar a autoestima apenas através da aparência, mas ajudar a construir uma relação mais gentil consigo mesma, uma base sólida que independe de como nos vemos no espelho. A beleza deixaria de ser uma tentativa constante de corrigir quem somos e passaria a ser uma forma de expressar quem já somos.
Quando mudamos o discurso, o olhar acompanha
A beleza é uma das ferramentas do cuidar. Durante muito tempo associei cuidado à esforço excessivo, controle e uma busca constante por resultados. Hoje entendo que, pelo menos para mim, o cuidado mais sustentável não vive nos extremos.
Também comecei a perceber que a presença tem mais valor do que a perfeição. Existe algo muito especial em trabalhar tão próximo das pessoas. Ao longo desses anos ouvi histórias de recomeços, perdas, conquistas, medos e sonhos. E observando tantas trajetórias diferentes, algo me chamou atenção.
Muitas vezes buscamos algo imediato para sanar um vazio, aquele que não preenchemos por muito tempo com coisas externas sabe? Mulheres lindas, bem sucedidas e com muitos motivos para estarem felizes, não estavam. Me encaixava nessa categoria facilmente.
Foi quando percebi que a sensação de plenitude parecia estar menos ligada às grandes conquistas e mais aos pequenos significados construídos diariamente. Momentos simples, autoconhecimento, relações verdadeiras e uma vida construída para além da aparência. E mesmo nunca tendo me considerado alguém fútil, fui condicionada a estar no modo automático e na superfície, onde tudo fazia muito sentido, até eu olhar um pouco mais de longe e passar a questionar meu cenário.
Talvez por isso eu acredite que o autocuidado que realmente sustenta a vida costuma ser mais simples do que imaginamos. E, quase sempre, é algo que nos reconecta com nosso autovalor.
A natureza me ensinou aquilo que a pressa nunca conseguiu
Como surfista desde os 14 anos, sempre tive uma relação muito próxima com a natureza. Com o tempo fui me rendendo completamente a ela, essa grande professora silenciosa. E quanto mais observo seus ciclos, mais percebo o quanto tentamos viver de forma diferente deles.
Queremos resultados imediatos, florescimento sem tempo de crescimento, produtividade sem descanso. A natureza não funciona assim. Existe tempo para expandir e tempo para recolher, tempo para florescer e tempo para criar raízes.
Talvez uma das coisas que mais tento levar para minha vida agora seja justamente esse respeito pelos ciclos, pelas fases. Nós, mulheres, somos cíclicas. Oscilamos, mudamos, sentimos de formas diferentes ao longo de um mesmo mês. E, muitas vezes, nem nós mesmas entendemos completamente esses movimentos.
Às vezes, cuidar também significa aceitar que algumas coisas estão amadurecendo em silêncio. Algumas das maiores mudanças da minha vida nasceram justamente quando aceitei que certas coisas chegam ao fim para dar lugar a outras. E talvez exista uma forma de cuidado também nisso: confiar que encerrar ciclos não é fracassar, mas abrir espaço para o que ainda está por vir.
As pequenas escolhas trazem muito mais mudanças do que imaginamos
Quando pensamos em mudar de vida, costumamos imaginar grandes decisões, mas o que tenho observado é que as transformações mais duradouras costumam começar nas pequenas escolhas.
Elas levam até as grandes mudanças. Uma vida mais equilibrada não é construída por momentos extraordinários, mas por hábitos simples repetidos ao longo do tempo.
Passar mais tempo na natureza, respeitar os próprios limites, aprender a dizer não. Estar cercada de pessoas com quem existe sintonia, criar momentos de pausa.
Tenho descoberto que viver com mais leveza exige coragem, e isso não é ausência de problemas. Não é uma vida perfeita. Talvez seja apenas uma forma diferente de caminhar pela vida sem precisar carregar tudo consigo. Tenho aprendido que algumas expectativas podem ser deixadas para trás, que nem todas as batalhas precisam ser travadas.
E coragem também é escolher um ritmo diferente daquele que o mundo parece impor. Não se trata de fugir da realidade, mas de aprender a viver com mais presença dentro dela. Estou inclusive ainda ressignificando aquilo que eu considerava sucesso e realização dentro da minha própria vida.
O que eu quero levar comigo
Depois de anos cuidando dos outros, percebi que o cuidado aparece na forma como falamos conosco, na forma em como respeitamos nossos limites. E se existe algo que quero continuar aprendendo, é criar espaço para ser quem já sou e para quem quer que eu ainda posso ser. Sem tanta pressa, sem tantas exigências e com mais verdade (e essa não é nem perfeita, nem linear).
Talvez essa seja uma boa pergunta para levar desse texto:
O que, na sua vida, está pedindo mais coragem, cuidado e leveza?
Sobre o autor
Paula Guimarães
Cabeleireira e Terapeuta Capilar, graduada em Biologia e Pós graduada em Tricologia e Cosmetologia
Especialista capilar com mais de 20 anos na área. Sua formação abrange beleza, saúde e bem estar, partindo da parte técnica aos 15 anos e percorrendo uma jornada multidisciplinar científica e acadêmica. Mais de 40 mil atendimentos ao longo dos 20 anos de carreira.
@apaulavirginiaComentários (0)
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